Reportagem especial sobre
SPAM (Veja. Edição 1862
. 14 de julho de 2004)
O americano Sterling McBride é um novo tipo de detetive. Sua especialidade é o
combate àquele que talvez seja o maior flagelo da era digital: o spam,
espécie de mensagem que abarrota a caixa postal dos internautas. Ex-agente
federal que perseguia prisioneiros fugitivos, McBride integra uma equipe contratada
pela gigante da informática Microsoft para investigar as gangues que
espalham essa praga virtual. O spam cresce a uma razão tão assustadora
que especialistas prevêem que ele poderá inviabilizar a comunicação
na rede num futuro não muito distante. Foi essa constatação
que levou a Microsoft, mantenedora do sistema gratuito de troca de mensagens
Hotmail, a entrar nessa guerra. Cinco anos atrás, o spam respondia por
uma fração ínfima do tráfego de e-mails. Hoje,
representa dois terços desse tráfego – 800 bilhões
de e-mails indesejáveis por ano. 
O Brasil é um dos
paraísos mundiais do spam. Segundo o The Spamhaus Project, associação
inglesa que luta contra essa atividade, o país ocupa a quinta
posição no ranking das nações mais afetadas.
O primeiro lugar cabe aos Estados Unidos e em seguida vêm a China,
a Coréia do Sul e Taiwan.
Por trás de 90% dos envios de spam estão cerca de 200 gangues.
As maiores delas disparam de 15 a 22 milhões de e-mails por dia. Elas
atuam simultaneamente em vários países. Para confundir seus rastros,
criadores de spam dos Estados Unidos podem usar computadores da China, da Índia – ou
do Brasil. Esses "empreendedores" faturam até 250.000 dólares
por ano. O volume de mensagens que enviam é tão alto, e os custos
do negócio tão baixos, que, mesmo que uma fração
mínima de seus alvos responda, algum lucro já está garantido.
Alguns e-mails acenam com a possibilidade de comprar remédios de venda
controlada sem receita, outros oferecem toda sorte de produtos ligados à pornografia – e
tome ofertas de kits de "alongamento peniano". Há também
propostas de empréstimos duvidosos, correntes financeiras e até fraudes
grotescas, que fazem o internauta acreditar que tem uma dívida ou um
problema com o cartão de crédito para arrancar-lhe algum dinheiro.
Os criadores de spam prosperaram
aproveitando-se do fato de que a prática de enviar e-mails para
um número indiscriminado de pessoas não era ilegal. Agora,
governos do mundo inteiro se mobilizam para mudar essa situação. "O
spam assumiu o caráter de crime organizado internacional, e é assim
que devemos encará-lo", diz o americano John Mozena, porta-voz
da Coalizão contra os E-mails Comerciais Não Solicitados.
No fim de 2003, os Estados Unidos promulgaram uma legislação
nessa área. No início do mês, seu serviço
de inteligência anunciou que agirá em conjunto com o da
Inglaterra e o da Austrália para combater esse mal e convidou
outros países a se juntar ao esforço. Um fruto da nova
filosofia de combate ao spam nos Estados Unidos foi a prisão
dias atrás, em Las Vegas, do engenheiro Jason Smathers e do
programador Sean Dunaway. Smathers trabalhava no provedor de internet
America Online (AOL). Ele é acusado de vender uma lista com
os endereços eletrônicos de 92 milhões de usuários
da AOL para Dunaway, um criador de spam. Não é fácil proteger-se do spam, pois seus criadores não
param de encontrar formas de burlar os filtros e sistemas de segurança
(veja quadro ao lado). Como sabem que os endereços de e-mail que utilizam
não tardam a ir para as listas negras, eles mudam de identidade o tempo
todo. O mais assustador é que podem usar o nome de internautas idôneos
e manchar a reputação deles. Funciona assim: eles enviam um e-mail
que, uma vez aberto, instala no computador alheio um programa capaz de disparar
milhares de mensagens indesejáveis em nome da vítima. Para as
empresas, o spam tem um custo altíssimo: de acordo com a consultoria
Basex, as companhias americanas perderam 20 bilhões de dólares
com o problema no ano passado. É o somatório de gastos com sistemas
de segurança, danos a servidores e o tempo que os funcionários
perdem para se livrar dessas mensagens. Para o usuário comum da internet,
o spam tornou-se um fator de stress. Na Inglaterra, há inclusive uma
expressão – e-mad – para descrever o pânico das pessoas
diante de suas caixas postais entupidas de spam. Os brasileiros também
já dão sinais de que essas mensagens estão passando dos
limites. Numa recente enquete com seus usuários, o site Yahoo! descobriu
que 24% deles acham o spam mais irritante que o trânsito das grandes
cidades.
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